A simbologia dos combates

Muito se ouve, quando o assunto abordado diz respeito à prática de artes marciais, que, mesmo sendo os intensos treinos marciais voltados para o combate contra um possível adversário exterior – possível porque é provável uma vida inteira de dedicação sem que haja uma real demanda da prática daquela arte.

sombra

O ingresso a uma ordem marcial, na maioria das vezes, parte do principio do enfrentamento de desafetos ou da edificação de proteção contra possíveis derivados – mas sempre considerados como ameaças externas. Este cenário dispõe de casos que vão desde pais que desejam que seus filhos saibam se defender até homens formados que alimentam fantasias de justiça social. Porém, para os dedicados, muito além do domínio da arte, durante o trajeto, aquele objetivo inicial dá lugar ao enfrentamento de outra ameaça, até então, negligenciada, e que, diferente daquele adversário externo que pode nunca cruzar o caminho, está sempre presente.

Estamos mergulhados em um universo regido por significados que estão muito além de seus significantes ou objetos de representação, de forma que, por exemplo, um combate não tem a mesma significação comum a todos aqueles que se dedicam a uma arte marcial.

Se um discípulo treme, fraqueja ou divaga diante da possibilidade de combate, a questão está aquém da situação concreta, ele está de encontro com algo ainda sem significação, com aquele adversário que irá acompanha-lo durante toda sua vida.

Porém, é sabido que quando se detém algum conhecimento marcial, a melhor forma de vencer uma batalha, antes de tudo, é conciliar-se com o adversário e, em última instância, fazer o uso das técnicas a favor da própria defesa, mesmo que se reconheça previamente a superioridade de domínio do adversário – no que diz respeito à força, técnica e outros recursos que possam garantir alguma vantagem.

Porém, quando se trata do adversário real – aquele que está por trás de toda a dinâmica e simbologia do combate – a melhor manobra é caminhar em sua direção, reconhece-lo, aproximar-se, conciliar-se com ele e digerir toda a representação que ele manifesta, pois se trata daquilo que causou assombros em outrora e que, de alguma maneira, foi extirpado, privando-o da oportunidade de conciliação.

Treinos nada mais são do que transpor barreiras que antes eram apresentadas como intransponíveis e no universo das artes marciais, é parte da experiência ter o conhecimento de que algumas barreiras – se não a maioria – para serem vencidas, devem ser decifradas, o que retira a prática da arte marcial no universo exclusivo da técnica e da força, e acrescenta-lhe também ao espaço do autoconhecimento quando traz à tona o despertar de demandas subjetivas, palco da maioria dos combates da vida.

Hudson Lacerda

Acerca de Hudson Lacerda

"Não me peça para dizer quem sou e nem para permanecer o mesmo." Michel Foucault.