Cada estrela na sua órbita

Uma das características mais marcantes da humanidade é sua dinâmica social. São poucos os lobos solitários que não se sentem inclinados a interagir com outros, e mesmo esse será forçado a interagir a menos que aceite todas as dificuldades e limitações da vida de um eremita.

Em nossas interações podemos nos beneficiar da companhia, habilidades individuais, capacidade de realização, emoções e muito mais que outros seres humanos têm a oferecer em suas quase infinitas combinações. É possível extrair vivência e conhecimento de qualquer destas interações, sejam elas positivas ou negativas.

Observando os relacionamentos humanos, percebemos que apesar de complexos, sua tendência pode ser reduzida a estas simplificações:


Relações Perpendiculares

“Quando dois caminhos se cruzam, aproveite este instante antes que se separem.”

Os dois indivíduos têm seus conjuntos de crenças, valores e objetivos bem definidos, o que lhes permite conhecer uma direção geral para a qual cada um se movimenta afim de ao se aproximar daquilo que consideram valer à pena, e que deriva benefício e prazer para si mesmos e talvez para os outros. No caso em pauta, essas direções gerais são opostas, o que fará com que esses indivíduos se encontrem eventualmente e possam desfrutar do que o outro tem a oferecer ali naquele ponto em que as linhas se cruzam. Eventualmente devem se separar para que cada um continue seu caminho.

É importante frisar que esse encontro das duas linhas não é algo que, diferente da geometria, acontecerá apenas em um dado ponto. É natural que ao longo de toda a vida você tenha em seu circulo social pessoas cujas rotas se cruzem com a sua em locais, finalidades e/ou momentos particulares, nos quais é possível que desfrutem do que o outro tem a oferecer, possam aprender um com o outro e trabalhar juntos.

Esse tipo de interação é bastante comum, e só se torna prejudicial quando se desvirtua para um relacionamento limitador por força da dependência, insegurança, medo da perda, necessidade de controle ou falta de direção. Nasce aí uma relação de oposição.


Relações de Oposição

“Quando duas vontades de chocam, um terá de empurrar mais forte enquanto o outro será contrariado.”

Quando indivíduos com direção geral oposta não querem abrir mão do relacionamento e do que o outro tem a oferecer em certas áreas da vida, surge a relação de oposição. Aqui, os indivíduos colidem em seus caminhos, e suas inércias passam a se anular total ou parcialmente em um verdadeiro cabo de guerra.

Imagine um casal que um deseja viver no campo, enquanto o outro deseja viver na cidade, mas não estão dispostos a viverem separados. Um terá de abrir mão daquilo que quer. Se essa diferença for algo de baixa relevância, um poderá abrir mão em prol do outro sem problemas. Se o assunto de discórdia for algo importante para ambos, aquele que abrir mão estará se sujeitando à repressão imposta pela vontade do outro.

Aquele cuja vontade é forte o suficiente para arrastar o outro prosseguirá em sua direção geral, agora com mais dificuldade já que carregará o peso da oposição do outro. O polo mais propício a ceder será arrastado para trás, na direção oposta daquilo que deseja, o que causará descontentamento e insatisfação individual que quase sempre interfere negativamente sobre o relacionamento.

Se ambos tiverem suas vontades igualmente fortes, se colocarão em um impasse. Se perceberem no que se envolveram, cada um seguirá seu caminho como na relação perpendicular descrita anteriormente. No pior cenário perderão muito tempo e energia querendo arrastar o outro cada um para a sua própria rota.


Direcionado Vs Perdido

“Para quem não sabe onde quer chegar, qualquer caminho serve.”

Quando um dos indivíduos vive com propósito, e se relaciona com indivíduos sem direção, que apenas vivem de maneira animal — acordar, trabalhar para sustentar as necessidades essenciais, satisfazer os desejos imediatos e dormir; repetir até a morte chegar. — a tendência é que estes perdidos sejam atraídos por aquele que tem direção, como corpos celestes que voam a esmo são atraídos pelo campo gravitacional de astros maiores.

Esse tipo de relacionamento é tolerável, e menos danoso que o anterior, mas está longe de ser ideal. Aqui, o indivíduo sem direção poderá desperdiçar muito tempo e energia seguindo o caminho do outro. Ao seguir o caminho de outro, além de não se obter a satisfação que se almeja, se desperdiça muito tempo, talvez anos da própria vida, que poderiam ser aproveitados na busca do próprio caminho.

O indivíduo líder terá de carregar consigo o peso do outro. Considere a rabiola de uma pipa: Se ela for pesada demais, ao invés de equilibrar a pipa, impedirá que essa voe com leveza e desenvoltura.


Relação Ideal

“Duas linhas paralelas nunca se chocam, e se encontram no infinito.”

Esta relação é teórica, e dificilmente será totalmente verdadeira no mundo real. Ocorre quando dois indivíduos têm objetivos que estão na mesma direção geral. Movem-se paralelamente, sem jamais se prejudicarem, e nem desviam o outro de sua própria rota.


Conclusão

Se você está em sua rota, terá muito para viver e aproveitar com os outros indivíduos que cruzarem o seu caminho. Aprender e ensinar. Dar e receber. Desfrutar de combinações infinitas de ideias, habilidades e emoções que serão intercambiadas. Mantenha-se vigilante para não se perder de sua rota. Não abra mão daquilo que considera importante apenas por carência, rejeição ou medo da perda. Busque se desfazer de toda dependência, se afastar de todos que te atrasam ou que te desviam de sua rota. Evite se responsabilizar por pessoas cuja entropia possa destruir a sua inércia positiva. Incentive os outros a priorizarem a si mesmos e focarem em seus próprios caminhos.

Cada estrela na sua órbita.

Rafael Salomão

Acerca de Rafael Salomão

O homem é o que faz de si mesmo. Faço de mim a cada dia alguém capaz de ajudar a humanidade a dar mais um passo. Isso é em si mesmo minha recompensa, pois como membro da humanidade, ajudo a mim mesmo.