O mestre e o discípulo

Quando se pensa na relação entre mestre e discípulo, resgatamos a imagem clássica do ancião transmitindo ensinamentos ao mais jovem através de uma metodologia filosófica e enigmática, mas sequer paramos para pensar na dinâmica que induz a escolha de um pelo outro.

Há nas relações de constituição do caráter, recursos que servem como substâncias para a solidificação de nossos alicerces. Em tenra idade, elegemos algumas figuras de representação como referências que nos ajudam em nossa edificação enquanto sujeitos. Certamente, quando me refiro à ‘escolhas’, falo de um processo abaixo daquilo que se conhece comumente como consciência, ou seja, é um caminho seguindo por um motivo aparentemente oculto – papo para outra ocasião.

No momento da eleição dessas figuras de autoridade, algo se inscreve no caráter que há de ser carregado por toda a vida e que, vez ou outra, virá à tona nos episódios em que se constrói qualquer tipo de relação, seja na escolha de parceiros, amigos, colegas, etc. Para ilustrar, é comum ouvir o colega dizer que ‘não se dá bem’ com alguém, ou o seu contrário. Ao ‘se dar bem’ com outra pessoa, o que ocorre é uma consonância de caráteres; é ver na outra pessoa traços daquilo que em outro momento serviu como referência em sua própria constituição de caráter.

Sendo assim, a relação entre mestre e discípulo, muito antes de ser uma escolha mútua que há de contribuir para educação e disciplina, se define como uma escolha baseada numa crença já trazida para aquela relação, de forma a ausência de harmonia entre as originais figuras de autoridade – em especial daquele menos disciplinado – poderá fadar a relação ao fracasso.

O mestre pode, ou não, ser escolhido; o discípulo pode, ou não, ser aceito – mesmo depois de algum tempo de trabalho entre os dois. Afinal, o fato de já insistirem no desenvolvimento de um trabalho juntos, está astronomicamente distante de significar a escolha de um pelo outro.

Como discípulos, devemos dar voz àqueles traços que nos constituem como sujeitos e fazer as escolhas livres de falsas pretensões que podem comprometer o projeto fora do alcance de nossas percepções.

Como mestres, devemos estar atentos se estamos sendo fieis àquilo em que realmente acreditamos ou se estamos recebendo discípulos a todo custo.

Hudson Lacerda

Acerca de Hudson Lacerda

"Não me peça para dizer quem sou e nem para permanecer o mesmo." Michel Foucault.