O pseudo-discípulo

Ignorando a si Atualmente, nota-se um esvaziamento de sentido em muitas práticas – se não todas – da vida quotidiana de grande parte da população. Atividades que deveriam ser exercidas sob a luz de alguma orientação baseada em questões singulares, hoje são praticadas de maneiras superficiais e desprovidas de qualquer preocupação de crescimento no que diz respeito à singularidade do universo que somos.

 O caminho para o desenvolvimento interior assume tantas formas que talvez a imaginação humana não possa conceber, e infelizmente essas variações são usurpadas pelo capital que anula o caminho e inverte a lógica, tornando-as objetivo-sem-valor, de forma que a preocupação e o interesse em um autodesenvolvimento que poderia ser alcançado, por exemplo, pela prática de uma arte marcial, se anula, transformando a prática em questão em um produto e, consequentemente, fabricando pseudo-discípulos descompromissados consigo mesmos.

 É sabido que a implicação do sujeito com as próprias questões não se apresenta como uma atividade de fácil envolvimento e por este motivo observa-se o crescimento de uma infinidade de distrações e artifícios de entorpecimento do corpo e da mente.  Porém, ao se dispor como discípulo da arte marcial, muito além de um desejo de dominar a técnica, deve prevalecer o desejo de aproximar-se da dominação de si mesmo onde a prática da arte é uma das formas escolhidas para trilhar este caminho.

 Não é possível obter sucesso em uma prática se, antes de toda investida, o sujeito desconhece ou ignora as próprias questões que lhe acometem. O instrumento corpo-mente deve ser constantemente calibrado na medida em que a prática progride. Dominar técnica não é conhecer teoria. A arte marcial surge na medida em que toca o sujeito, pois a cada escola soma-se o discípulo e espera-se que de cada discípulo que domine a arte venha à tona uma nova escola nascida da associação entre a técnica transmitida pela escola e o domínio próprio do discípulo conquistado através da disposição do discípulo em se desvendar pela transmissão dos ensinamentos da escola.

 O esvaziamento ou a perda de sentido em toda e qualquer prática da vida, reduz aquilo que deveria ser usado como artifício de desenvolvimento a um recipiente vazio e quando se trata de arte marcial, seja qual for a filosofia da arte, este esvaziamento a torna apenas uma atividade física, e lança o praticante numa cascata de desonra de séculos de arte, de toda uma comunidade e acima de tudo, fundamentalmente de si mesmo.

Hudson Lacerda

Acerca de Hudson Lacerda

"Não me peça para dizer quem sou e nem para permanecer o mesmo." Michel Foucault.